A Wine Detective investiga as castas escondidas de Portugal

As castas obscuras portuguesas estarão destinadas ao estrelato como artistas a solo ou serão meras bandas de suporte? Não há qualquer vergonha nisso. Portugal tem uma tradição distinta de lotear que constitui uma força enorme. Como se costuma dizer, o todo é melhor que a soma das partes. O lote é uma ferramenta fabulosa para aprimorar a complexidade e a consistência e, com tantas variedades autóctones, os produtores de vinho são mimados pela liberdade de escolha. Especialmente no Douro.


Em junho, tinha agendadas visitas à Herdade do Esporão e à Symington Family Estates para explorar as variedades 'fora do baralho' em Portugal. Foram plantadas 187 variedades diferentes em 2011 no 'campo ampelográfico' do Esporão, no Alentejo, enquanto os Symington plantaram 53 variedades em três 'bibliotecas’ do Douro. Claro que os meus planos saíram frustrados, mas nem tudo foi perdido, pois recebi amostras varietais únicas da linha Séries da Real Companhia Velha e, do Alentejo, da nova gama Chão dos Eremitas, de António Maçanita.

Estes vinhos despertaram a minha curiosidade e foram responsáveis por provas não isentas de alguma provocação. Pode ser desafiador provar vinhos de castas sobre as quais não temos qualquer ponto de referência. É suposto saberem a quê? Como avaliamos vinhos que têm poucos, ou nenhuns, pares? Recordei-me de uma conversa com Louisa Rose, que enfrentou questões semelhantes em Yalumba. Quando este produtor australiano introduziu Viognier no Eden Valley, em 1980, a uva mal era cultivada em Condrieu, o seu berço no Rhône, com menos de 15 hectares. Recém-formada, encarregada de fazer os seus primeiros vinhos de Viognier, Rose recorda que nunca tinha ouvido falar da variedade, muito menos provado e, naquela época, não havia internet para ‘googlar’. Ao invés, admitiu que era uma questão de experimentação – testar, ensaiar, aprender a descobrir como a Viognier amadurecia e qual a melhor forma de fazer estes vinhos no Eden Valley.

A Viognier não eclipsou a Chardonnay, como alguns previram (de maneira bastante otimista) durante a reação “qualquer coisa menos Chardonnay”. No entanto, com o entrada de gama Série Y (um produto básico de supermercado no Reino Unido) e The Virgilius, o branco de topo da Yalumba, os aclamados Viogniers deste produtor alcançaram o objetivo de Rose em contribuir que a Austrália fosse reconhecida por mais de cinco variedades. Resta ver que contribuição darão à paisagem vínica de Portugal as obscuras uvas autóctones que provei o mês passado. A Real Companhia Velha (RCV) e António Maçanita começaram a vinificá-las apenas recentemente e são produzidas em quantidades minúsculas - a RCV produziu apenas 600 garrafas do Séries Malvasia Preta 2016. 


Descobertas no Douro e Alentejo

É bom constatar que, ultimamente, é dada mais atenção às variedades menos conhecidas do Douro, depois do foco estar concentrado nas ‘top 5’ (Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinto Cão e Tinta Barroca), que formam o pilar das modernas plantações. Para o enólogo da RCV, Jorge Moreira, os Séries são um veículo para explorar variedades alternativas que produzem naturalmente estilos de Douro mais elegantes, frescos e leves, em vez de colher uvas em verde ou usar técnicas de vinificação que, acredita, “podem roubar o carácter do lugar”. Atualmente “numa fase de descoberta”, o primeiro passo é “encontrar uvas com frescura e acidez na fase ideal de maturação”. Descrevendo-o como “sedutor e leve”, o Séries Bastardo é um desses exemplos e, graças à sua diferenciação, esta casta tem sido um sucesso de vendas para Rita Marques, dos vinhos Conceito. Por fim, para Jorge Moreira, “o futuro da gama Séries passará mais pelo lote”. Até agora, descobriu nas variedades Tinta Francisca e Malvasia Preta os tintos mais interessantes, “porque mostram realmente a nossa região, mas com menos corpo e estrutura”. Pungentemente especiado, com a sua fruta negra, muito intenso, o Malvasia Preta pareceu-me ser mais um tempero fantástico do que uma estrela por si só.

Quanto às três amostras brancas de 2018 da gama Séries, talvez criando conexões fantásticas com a Touriga Nacional, encontrei toques de bergamota na Touriga Branca, da qual Jorge Moreira descobriu que possui igualmente afinidade com o carvalho, envelhecendo bem em madeira. A variedade Samarrinho, por outro lado, envelhece bem e não lhe faltam estrutura ou personalidade, com uma componente fenólica e mineralidade pronunciada a acrescentar ao seu carácter cítrico e atrevido. Não será o branco mais consensual mas, ao contrário da Touriga Branca, duas colheitas convenceram-me que funciona bem a solo. Já tinha provado a casta Donzelinho em lotes do Douro, mas nunca a solo. Jorge Moreira enalteceu um vinho com “inacreditáveis” 30 anos, que achava capaz de envelhecer por décadas. Foi o vinho mais completo do trio, com a boca gorda de noz, próxima dos frutos de caroço e ressonâncias herbais no final persistente e equilibrado.

Em 2010, nos Açores, a variedade única e pioneira de António Maçanita, Terrantez do Pico, inspirou uma onda de plantio desta casta autóctone, que esteve perigosamente perto da extinção. Em 2018, este enólogo apontou a três variedades negligenciadas de uma vinha de 50 anos no sopé da Serra d'Ossa, lançando a linha Chão dos Eremitas. Enquanto o potencial de qualidade da Terrantez do Pico e a pura força da sua personalidade eram imediatamente evidentes (e foram-na confirmadas por colheitas subsequentes), tive dificuldades em detectar o perfil aromático e sabor intrínseco dos vinhos de Trincadeira-das-Pratas e Alicante Branco na nova colheita de brancos de 2018 (em parte, suspeito, obscurecidos pelo ritmo induzido pela redução, embora a sua persistência fosse evidente). Por outro lado, pura de expressão, muito fresca, com morango e melancia deliciosos, a Tinta Carvalha, sem madeira, introduz um tinto incomum e elegante ao repertório alentejano.

As variedades raras podem criar desafios, levando tempo a dominar, mas muito se ganha com a exploração da personalidade de diferentes castas. Apesar de admitir que, “como resultado da seleção de variedades, elevamos a qualidade e o Vinho do Porto tornou-se muito mais consistente em toda a região”, como David Guimaraens disse, “não queremos facilitar as nossas vidas - estamos aqui para fazer grandes vinho. Não queremos que seja tudo igual...”

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